A pistola laser e a espada mágica
Adoro ler. Desde que me lembro que é a coisa de que mais gosto. Uma história consegue exercer sobre mim um poder indescritível de imersão e atracção que me faz virar página atrás de página. E episódio atrás de episódio, que esta paixão por ficção estende-se naturalmente a filmes e séries. Mas não há nada que se compare a um livro. A riqueza das descrições, a falta de limites para a história que se quer contar, a facilidade em passar por sério algo que ficaria ridículo num ecrã... É tudo incrível.
As minhas leituras foram evoluindo com os anos, naturalmente. De livros infanto-juvenis simples e formulaicos como O Bando dos Quatro, rapidamente passei aos livros do Poirot e do Sherlock Holmes. Mais tarde, por via de uma colecção lindíssima (que estou agora, finalmente, 20 anos depois, a conseguir acabar!), as aventuras escritas por Júlio Verne. Pelo meio destas coisas apareceram outras coisas, muitas, que fui descobrindo ao acaso na Bertrand, Fnac e, sim, nos hipermercados. Muito livro comprei eu no Feira Nova e no Continente...
Algumas dessas coisas, por exemplo, foram os livros do Senhor dos Anéis. Sim, umas edições quase luxuosas, com muito bom aspecto, da série de fantasia mais famosa de todos os tempos, à venda no Feira Nova, ao lado de tapetes, almofadas, talheres, pão e bolos. Não sei se foram os primeiros livros de fantasia que li, imagino que não, mas lembro-me bem de os comprar. Talvez os primeiros tenham sido os Harry Potter, mas não posso garantir, as minhas memórias dessas leituras juvenis misturam-se e baralham-se, até porque muitas delas foram repetidas mais tarde.
O que tenho a certeza é que comprei, por mim, intencionalmente, um livro de high fantasy de um autor português, A Manopla de Karasthan, do Filipe Faria, o primeiro volume das Crónicas de Allaryia, que estão agora perto de ser terminadas. E que me foi oferecido o Eragon, do Christopher Paolini, igualmente com uma segunda vida perto de ser terminada. Abriu-se um mundo. Esta fantasia épica, com dragões, aventuras, magia, mitologias próprias... As minhas leituras nunca mais voltaram a ser as mesmas.
Gosto de ler (quase) tudo, mas quando me deparo com um livro de fantasia nas mãos... Não consigo descrever a sensação. Não há nada que me chame mais a atenção numa livraria do que ver vários livros seguidos, claramente da mesma colecção, todos com tamanho (e às vezes peso) de um pacote de leite. Ler os clássicos é bom, mas ler 1400 páginas de intrigas palacianas num mundo em que para fazer magia é preciso engolir metais? Vamos embora!
Mas eu também escrevo. E também adoro ainda que tenha mais jeito para ler do que para escrever. E é com muita pena minha que já constatei que tenho mais jeito para escrever ficção científica ou terror, do que fantasia épica. Não faz sentido! Se for para ler, quero o As Aventuras de Blek Livro 1 - Dragões Nuvem e Grutas no Céu, mas se for para escrever, o que me sai é Canetas de Sangue ou Múltiplas Personalidades na Cloud...
(isto são tudo bons títulos, tenho que anotar)
Sempre me custou. Porque eu gostava muito de escrever algo no género que mais prazer me dá a ler, mas não consigo. Todas as minhas tentativas ficam sempre... aquém. Concedo que provavelmente são histórias que precisam de espaço para desenvolver, e portanto desanimar logo a meio do primeiro capítulo não dá com nada. E tenciono tentar combater isso eventualmente e forçar-me a de facto escrever alguma coisa dessas até ao fim.
No entretanto, por outro lado, acho que me apercebi de qual poderá ser o problema. Parece-me mais fácil escrever ficção científica do que fantasia porque estamos mais próximos dos primeiros mundos do que dos segundos. Ou seja, o nosso mundo actual é mais semelhante aos mundos dos livros de ficção científica do que aos mundos dos livros de fantasia. E portanto é mais fácil criar um mundo verosímil.
Pelo menos para mim, enquanto escrevo. Um mundo de fantasia rapidamente se torna ridículo aos meus olhos, enquanto que um mundo de ficção científica mais facilmente se cimenta como possível. Faz bastante sentido, e explica a minha dificuldade com isto. Suponho que não tenho outra hipótese que não insistir e tentar escrever qualquer coisa de fantasia épica. Ideias tenho muitas, e vou agora andar a ler várias coisas nesse estilo, portanto... Veremos!
P.S.: talvez não seja má ideia deixar aqui no blog algum tipo estado da situação relativamente aos meus projectos de escrita... e, quiçá, relativamente a outros também.