Carros sem travões
Há carros que não têm travões. Pelo menos é o que parece, tendo em conta a maneira como agem quando se deparam com uma passadeira. Nem falo dos que ignoram e não param, que enfim. Falo daquele segmento da população condutora, muito especialinho, que vê a passadeira, regista, decide agir e opta por desacelerar. Digo que opta, mas naturalmente não é uma escolha, pois se não têm travões. Limitam-se a tirar o pé do acelerador e a esperar avidamente que seja possível voltar a pisá-lo com toda a força.
A minha reacção instintiva é sempre de lançar intensos olhares plenos de significados, nenhum deles positivos. As pessoas, naturalmente, reagem mal, e olham de volta, plenos de significados, todos eles ainda menos positivos do que os maus. E faz sentido, pois sentem que os estou a julgar por algo de que não têm culpa, pois se não têm travões!
Já me perguntei várias vezes como é que é possível andarem-se a vender carros assim. Será que é normal, e a maior parte dos carros tem qualquer coisa em falta? Já vi muitos carros sem alguns vidros, ou sem um dos faróis a funcionar, portanto talvez seja por aí. Os mais infelizes são estes pobres coitados que quando compram um carro nem imaginam que não traz travões.
A culpa, a existir alguma, tem que ser então, obviamente, dos vendedores de automóveis. Porque ninguém no seu perfeito juízo compra um carro sem travões. Mas as estradas estão cheias deles. A única explicação minimamente plausível é que os vendedores de carros, confrontados com a dura realidade de que a maior parte dos carros são defeituosos, quando se deparam com um caso destes, têm que fazer tudo por tudo para os conseguir vender ao engano.
Será que fazem os test-drives em carros impecáveis e depois entregam um destes sem travões? Será que têm um grupo de pessoas especializadas em puxar o carro para trás sem se deixarem ver, quando alguém quer experimentar um destes carros? Não faço ideia, mas que tem que haver trafulhice envolvida, ai isso sim senhor!
Agora, como é que é possível que haja tantos carros assim? Os vendedores, coitados, na verdade são também eles vítimas de uma cabala que tem que vir atrás: apenas se tentam livrar de carros que seriam impossíveis de vender em circunstâncias normais. Não, o problema tem que ser mais a montante, nas próprias fábricas. As linhas de montagem devem ter algum problema, a instalação dos travões deve ser particularmente difícil, não sei!
A não ser que… Calma, será? Não pode. Mas faz sentido. De uma maneira retorcida, mas faz todo o sentido. Ora vejamos: quem é que faz os carros? Os trabalhadores das fábricas. Que certamente têm os seus próprios carros. Alguns deles terão sido enganados ao comprarem os carros, e acabaram com um sem travões em mãos. E se calhar, para se vingarem, fazem eles próprios os carros sem travões, para não serem os únicos! Ou desviam os travões para os tentarem instalar nos seus carros, sem sucesso, pois será certamente uma instalação complicada.
Só que quantos mais carros fazem sem travões, mais pessoas são enganadas e acabam com carros defeituosos. O que significa que estatisticamente cada vez haverá mais trabalhadores de fábricas de automóveis com carros sem travões, levando a que sejam feitos mais carros sem travões, e por aí fora.
Claro! Só pode ser isto! Estranhos são os carros com travões, e mais cedo ou mais tarde todos os carros virão sem travões, e toda a gente no mundo vai conduzir um carro desses, e pelo menos seremos todos igualmente culpados. Ok. Menos mal.
Vou tentar deixar de lançar olhares plenos de significados negativos quando encontrar um destes carros numa passadeira. São eles as vítimas de uma espécie de conspiração logística involuntária!