Considerações pífias sobre o Nobel da Literatura
Vem aí o Nobel da Literatura deste ano. Em princípio será uma mulher, já que a academia tem alternado entre géneros nos últimos anos. Fazem-se apostas, há listas de favoritos, mas a escolha é sempre mais ou menos imprevisível.
Honra seja feita ao Comité, parecem pelo menos manterem-se imunes ao Culto do Trump, algo que nem a Igreja Católica conseguiu, quando chegou a hora de escolher o novo papa.
Também parecem ser imunes à maioria das críticas. Fizeram cedências no rácio homens/mulheres, e têm-se esforçado activamente para não serem tão eurocentrados, ainda que com pouco sucesso.
Sabe-se bem que o Nobel da Literatura é bastante político, ficando atrás apenas do Nobel da Paz, e por pouco, na minha opinião. Acho que nunca se percebeu muito bem o critério, será que privilegiam autores contra determinadas correntes políticas? Ou simplesmente pessoas politicamente activas? Ou pessoas cujas ideias políticas inundam a sua obra? Será que depende da altura? Ou estará demasiado dependente daquilo que se passa e se pensa na Suécia, a casa da Academia que escolhe os laureados?
Sem esquecer que, historicamente, há falhas gravíssimas, em termos literários. O primeiro prémio Nobel da Literatura foi para Sully Prudhome, um autor francês, aparentemente boa pessoa e tudo, mas de quem ninguém se lembra, e que viveu ao mesmo tempo que Leo Tolstoy, um autor mais ou menos universalmente reconhecido como um dos maiores escritores de sempre. E tudo porque a Academia Sueca não gostava (mais ou menos compreensivelmente) da Rússia.
Nem vou falar da injustiça que é o Mia Couto ainda não ter recebido o Nobel, também. Já o digo há muitos anos, e ele ainda é relativamente novo, mas espero que chegue o dia. Talvez para o ano.
No fundo, no fundo, não tenho nada de particularmente relevante para dizer. Talvez um dia que inicie o meu projecto de leitura dos autores que receberam o Nobel consiga ter umas ideias mais estruturadas. Mas se calhar isso vai ser um projecto longo e que vai precisar de estrutura.
No entretanto talvez devesse pensar em quem é que eu acho que de facto merecia receber o prémio. Além do Mia Couto, claro. A Ursula K. LeGuin já vai tarde, mas tinha ficado excelentemente bem entregue. Será que um dia a Academia tem um acesso de loucura e o dá ao Stephen King? Ria-me. E ficava contente. Merece mais do que o Bob Dylan. Tenho dito.