Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo
Dito assim, parece ridículo, não é? Claro que duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Ninguém, absolutamente ninguém, disputa isso, a não ser que seja tolo. Mas parece haver cada vez mais resistência a esta noção. Vou dar alguns exemplos, completamente aleatórios e sem qualquer ligação com a realidade recente:
Um regime pode ser horrendo E mandar bombas para cima desse regime pode ser má ideia.
Um candidato pode ser mau E ser a melhor opção.
Um bebé pode ter imensa energia e não conseguir estar quieto E ser um pastelão.
A última talvez esteja um bocadinho menos dentro de temas relevantes para a sociedade, confesso.
Mas isto é bastante evidente, e alegar o contrário é recorrer à falácia da falsa dicotomia, omitindo a possibilidade de existirem outras opções para além das duas apresentadas, por muito opostas que possam parecer.
Torna-se mais ridículo quando usado em discurso político. Há problemas com a imigração, certamente, mas concluir daí que a solução é "mandá-los todos para a terra deles", para além de racista, é perigosamente taberneiro. É como dizer que ou se é socialista ou fascista, como se não existisse todo um espectro de ideologias. Também muito próxima está a falácia da falsa equivalência, quando se diz coisas como "os socialistas são comunistas" ou "o comunismo é estalinismo" ou "a extrema-direita é fascista" ou "a anarquia é falta de regras".
Esta última, mais uma vez, é um bocadinho pessoal, mas fica para outro dia.
Falar de comunismo como sendo estalinismo ou da extrema-direita como fascistas é falacioso. Os idiotas vêm em vários formatos, há outros comunismos (alguns porreiros), assim como há outras extremas-direitas (nenhuma delas me agrada, mas há algumas um bocadinho mais civilizadas do que os suínos que temos no parlamento).
Reparemos nesta comparação extremamente lógica e explicativa: eu não gosto de bacalhau, mas adoro pastéis de bacalhau. Podemos sacar uma falsa dicotomia se disser que ou gosto de bacalhau ou então não posso gostar de pastéis de bacalhau; mas também uma falsa equivalência se dissermos que os pastéis de bacalhau são essencialmente bacalhau.
Sou a prova viva de que é possível gostar de pastéis de bacalhau sem gostar de bacalhau; e pastéis de bacalhau são muitas vezes essencialmente batata. E batata é bom. Toda a gente gosta de batata. Alguém não gosta de batata? Em Portugal, pelo menos, é impossível. Batata é bom. Batata. É. BOM.
De qualquer maneira, queria só mesmo realçar esta coisa que considero importante de que duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Posso escrever um texto a falar de guerra e de pastéis de bacalhau.
Simples.