Exercício 4 - Refeição
O empregado pousa a comida em frente ao homem cego. Hesita um momento, começa a falar, mas os olhos vazios viram-se na sua direcção como se o conseguissem ver, como se conseguissem ver através dele. O empregado engole em seco e volta para trás. O homem cego volta a atenção de novo para o prato que não consegue ver. Inspira suavemente para sentir todos os cheiros. Não vai comer, já perdeu essa capacidade há muito tempo, mas o cheiro continua a ser agradável.
"Olá", diz uma voz grave atrás de si. O seu corpo entrou em estado de alerta, mas apenas durante um momento. Não haviam muitas criaturas que o conseguissem surpreender daquela maneira, mas reconheceu aquela voz.
"Como é que me encontraste?"
"Consigo sempre encontrar-te", respondeu a voz enquanto o seu dono dava à volta à mesa e se sentava em frente ao homem cego. Era baixo, mas largo, musculado, com qualquer coisa de primal, uma espécie de fúria mal contida.
"Pensei que me querias ver durante o dia."
"Sim. Mas tu complicas sempre, portanto, cá estou eu."
"E hoje é..."
"Lua Nova, claro. Achei que devia equilibrar as coisas."
Os dois homens ficaram em silêncio. O recém-chegado esticou o braço para o prato de comida intocada, mas o outro homem agarrou-lhe o pulso com uma velocidade e força sobrenatural. Levou a mão livre ao chapéu, mas foi interrompido.
"Desnecessário. Não quero lutar. E sei que não vais comer isto."
Contrariado, o homem cego largou o chapéu e o pulso do outro homem, que puxou rapidamente o prato para a sua frente. Começou a comer, delicadamente, com as mãos.
"Tens bom gosto, para quem não come. Continuas a fazer este teatro pelo cheiro?"
"Sim."
"Nada contra. Já sabes do que quero falar?"
"Imagino. Mas gostava que o dissesses" respondeu o homem cego, com um sorriso que não se estendeu aos olhos vazios.
"Quero ajudar-te."
"O grande lobisomem quer ajudar o pobre vampiro, não é verdade?"
"Se quiseres pôr as coisas nesses termos. Mas quero ajudar-te porque somos amigos."
"Éramos."
"Somos, digas o que disseres."
"Não preciso de dizer nada, posso mostrar-te, já que vieste ter comigo de noite..."
O lobisomem continuou a comer, sem tirar os olhos da comida.
"Podes fazer isso, e eu mostro-te exactamente do que sou capaz durante a Lua Nova."
O vampiro riu-se, alto demais. Tirou a carteira e largou duas notas grandes em cima da mesa. Levantou-se lentamente, com todos os olhares do restaurantes fixos no seu corpo magro.
"Vamos! Vamos ver quem ganha... Vem atrás de mim, se quiseres.. Vamos!"
Perante o olhar estupefacto do lobisomem, o vampiro virou costas e saiu do restaurante. Caminhava de forma confiante e deliberada, sem olhar para trás. A vontade do lobisomem era correr atrás dele e obrigá-lo a ouvir, mas será que era capaz? Seria forte o suficiente? E se não fosse, confiava que o seu amigo não o ia simplesmente matar para lhe arrancar os olhos?
Não sabia. Deixou-se ficar sentado, a acabar a refeição.