Tudo se faz

Exercício 5 - Um recado da escola

Pego no papel que me é estendido. Cabisbaixa, nem olha para mim. Cruza os braços e encosta-se para trás, sem dizer uma palavra. Leio o papel.

Caro Encarregado de Educação,
A aluna Sofia Dias recebeu uma nota de suspensão de três dias por desacatos graves ocorridos durante uma aula de Português. Vimos por este meio pedir a sua comparência na escola amanhã, dia 23 de Outubro, às 17h30, para uma reunião com a Directora de Turma Paula Tavares, com o intuito de discutir o incidente.
Cumprimentos,
A Directora Executiva
Maria Duarte

Olho novamente para ela, que continua a olhar intensamente para a mesa que nos separa. O cabelo negro e escorrido cai-lhe para a frente, como cortinas que lhe tapam a cara. Estendo a mão, lentamente, para bater ao de leve na mesa.

"Estás bem?"

"Sim."

"Tiveste problemas na escola."

"Tive."

"O que se passou?"

"Promete que não te zangas."

"Naturalmente."

Ela olha finalmente para cima, de sobrolho erguido.

"Não estás zangado?"

"Porque é que haveria de estar?"

"Fui suspensa."

"Porquê?"

Nascem-lhe lágrimas nos olhos. A pergunta directa revela-se demasiado intensa. O que quer que tenha acontecido, está-lhe a pesar na consciência.

"Podes contar-me."

"Foi o Tomás. Apalpou-me."

"E tu o que fizeste?"

"Assustei-me e gritei..."

"E depois?"

"Depois bati-lhe."

Um pequeno sorriso surpreende-me. Tem vergonha de se ter assustado, mas prazer em ter batido no pequeno idiota. Interessante.

"Só isso?"

"Bem", começa ela, desconfortável. "Dei-lhe um soco no estômago e depois empurrei-lhe a cabeça contra a mesa. Tive.. Teve azar e bateu com a boca na borda. Partiu cinco dentes."

Mais desconfortável do que arrependida, olha para mim, expectante. Solto uma gargalhada. É bom que tenhas aprendido a lição, Tomás.

"Pai?"

Concentro-me na criança e inclino-me para a frente, para que veja bem a minha cara.

"Não sou o teu pai."

O horror espalha-se lentamente pela sua cara, primeiro nos olhos arregalados, depois no impulso que dá para trás ao ver as linhas negras que preenchem o branco dos olhos que costumavam ser do pai dela.

"O meu nome é Rashalzegor. O teu pai não volta mais. Mas o acordo que tenho com ele obriga-me a proteger-te."

"Mas.. O meu pai..."

"Esquece. Está a ocupar o meu lugar no Inferno. As almas mortais só conseguem fazer viagens de ida", digo, com um sorriso. "Mas mesmo sem acordo, gosto de ti. Ensinaste das boas a esse rapazola. Agora, tenho algum tempo livre... Queres que acabe o trabalho e o vá matar?"

A criança olha para mim, assustada, mas ao ouvir a minha proposta deixa cair a máscara. Tal como eu suspeitava. Será que o pai sabia a filha que tinha?

"Sim", responde ela, estendendo as mãos para agarrar as minhas. "Posso ver?"

#escrita #exercício #fragmentos