Tudo se faz

Recomeçar novamente de novo

Não sei o que me atrai invariavelmente para os blogs. Já há muitos anos que comecei a escrever um, depois dois, depois cinco ou seis, novamente dois, até voltar a ser só um, mas não o original, e eventualmente até esse parou. Fiz algumas tentativas desde aí, sem grande sucesso. Do ponto de vista de me manter motivado para continuar a escrever.

Acho que o espírito do meu primeiro blog, o O Mundo é Triangular, era o certo. Pelo menos no início. Piadolas avulsas, geralmente idiotas, é certo, mas algumas coisas um bocadinho mais bem construídas. Sinto, e digo isto sem quaisquer provas para apresentar, pois recuso-me a ir reler as minhas piadas de há quase 20 anos atrás, que acabei a evoluir bastante ao longo do tempo de vida desse blog. Ou mudar, como insistiria a minha mãe, já que vou dizer a seguir que nem todas as evoluções mudanças foram necessariamente boas.

Mas serviu para explorar o que tinha para dizer, e acima de tudo o como. Acho que é disso que tenho saudades, de escrever mais ou menos livremente, sem grandes objectivos em mente (publicar um conto, ganhar um concurso, dizer alguma coisa profunda, ou com muita piada, ter muitos comentários no blog...). Talvez seja isso que ando a perseguir com as várias tentativas que já fiz de voltar aos blogs, e com as dezenas de caderninhos que tenho espalhados por todo o lado, cada um com o seu propósito.

Foi então que li este texto (muito interessante) do Cory Doctorow, e por consequência este (também muito interessante) do mesmo autor. Cheguei até ao primeiro via sugestão tumblriana do João Campos, no seu Sobreiro Mecânico, que sigo com afinco.

Conheço o João de participarmos juntos numa oficina de escrita criativa, e tenho seguido o que diz e escreve onde quer que ele o partilhe, vale a pena. Já o Cory Doctorow é um autor de ficção científica com muitas opiniões e que está permanentemente na minha lista de "leituras eventuais", uma lista muito engraçada, com centenas de autores e milhares de livros, cujos nomes reconheço, mas que não têm prioridade suficiente para os incluir nas wishlists da Wook (ou do Kobo).

Voltando ao assunto, o motivo da partilha do texto é mais especificamente relacionado com utilização e deslumbramento, ou falta dele, com a chamada generative AI, que é um assunto que me interessa muito na teoria, mas muito pouco na prática. De tal maneira que é neste momento aquilo em que trabalho, e toda a gente sabe que hoje em dia é difícil trabalhar em algo de que se goste, não é verdade? (fica para outra altura, esta discussão)

De qualquer maneira o ponto que quero fazer nada tem a ver com AI. Porque os textos do Cory Doctorow falam sobre escrever e publicar textos num blog, e na utilização específica que ele faz dos blogs como uma espécie de caderno de notas / cérebro externo / arquivo. E de repente acendeu-se uma luz na minha cabeça. Ando há anos a lutar com exactamente esse problema. Onde, e como, tirar notas? Onde, e como guardar as coisas que me interessam? Onde, e como, pensar um bocadinho sobre alguns assuntos? O que fazer com toda a informação que consumo diariamente sobre temas que me interessam? Leio, ou vejo, ou oiço, alguma coisa, e a maior parte disso simplesmente... fica na minha memória, que é extremamente pouco confiável.

Ao mesmo tempo tenho esta atracção irresistível por ter um blog. E por escrever. A solução é tão simples. É só juntar ambas as coisas, criar um blog (este) e escrever, escrever, escrever. Sem pensamentos profundos, ou aspirações literárias. Coisas que me interessam. Comentar outros textos. Críticas e opiniões a livros, filmes e afins, certamente, não consigo nunca escapar aos livros. Uma espécie de diário de bordo do meu cérebro.

Sem esquecer, claro, a simplicidade. Escrever e publicar, com o mínimo de floreados. Costumo cair facilmente na armadilha de tentar fazer eu as coisas, de usar as minhas (medianas) capacidades de código para fazer o blog no GitHub, ou tentar construir um site para alojar algures... Mas não tenho a dedicação suficiente para tal. Não é divertido. Torna-se um obstáculo à escrita. Perco-me em loops de formas de fazer as coisas, e de repente tenho um projecto de código em mãos, e não um projecto de escrita. Portanto acho que me deixei disso, pelo menos por agora.

Quantas vezes é que eu já comecei um blog? Muitas, muitas. Quantos desses blogs é que mantive regularmente durante um tempo razoável? Dois? Dá uma taxa de eficácia muito baixa, mas... Sinto-me algo confiante com este. A ver vamos. Talvez funcione melhor se não me esquecer do nome que decidi dar ao blog.

Tudo se faz.

#bastidores