The Stand (Stephen King)
Consegui! Acabei as 1325 páginas deste livro! Pela segunda vez na vida! Claramente tenho um problema, mas tudo bem, estou empenhado em cumprir a minha leitura integral da obra do melhor contador de histórias do planeta. Do mais eficaz, pelo menos. Menosprezado por muita gente por escrever terror e coisas esquisitas, o homem é um génio e assustadoramente prolífico. Merece bem mais reconhecimento!
Agora, ler esta versão revista e expandida daquele que já era um livro grande, é qualquer coisa. Senti que foi como ter um trabalho a part-time, tinha que me dedicar a cumprir o meu tempo de leitura, se não a coisa não andava, e muitas vezes pareceu demasiado trabalho para pouco proveito. Mas agora que acabou, sinto falta, porque é melhor trabalhar a meio tempo do que estar desempregado, não é verdade? Pelo menos se se quiser comer e comprar fraldas.
Faço já a nota de que sim, o livro podia ser mais curto sem perder interesse. Se calhar até ficava melhor. Mas o homem tem escritorreia! Um dia que faleça e os filhos vão lá a casa, vão descobrir uma cave com pilhas e pilhas de manuscritos, não tenho dúvida nenhuma. Chega a ser assustador!
Mas bem. Esta releitura foi vastamente diferente da primeira. Porquê? Ora, porque é um livro sobre uma pandemia global que dizima 99% da população. A primeira vez que li, isto parecia uma coisa distante, fantasiosa, do terreno da ficção. Mas depois do COVID convenhamos que é um bocadinho diferente. Desta vez, ao ler, senti que já passei por algumas daquelas coisas. As fases iniciais, com quarentenas e confinamentos e o medo de não saber como é que o vírus transmitia, ou como é que se curava... Foi de facto bastante próxima da realidade.
Mas em 2020 não morreu quase toda a gente, nem apareceram duas figuras messiânicas em pólos opostos da moralidade, que atraíram pessoas para as suas causas através de sonhos. Não foi preciso reconstruir a sociedade, bocadinho a bocadinho. Do mal o menos.
Como sempre, e tratando-se de um livro de Stephen King, o elenco de personagens é vasto, ainda que não tão vasto como noutros livros em que se contam às centenas. Aqui temos dezenas de personagens que aparecem e desaparecem, ou que fazem essencialmente cameos para avançar um bocadinho com alguma parte da história específica, mas não há mais do que 15 ou 20 personagens verdadeiramente importantes. E se calhar contam-se pelos dedos de uma mão as interessantes.
Estou, naturalmente, a falar de Nick Andros, o surdo, e Tom Cullen, um homem feito com a mente de uma criança de dez anos. Falo de Abagail Freemantle, a messias do bem, uma velhota desdentada com 108 anos, teimosa e cheia de histórias. Mas falo também de Harold Lauder, o rapaz rejeitado por ser esquisito mas que se revela bastante inteligente e um repositório de conhecimento aparentemente inútil mas que de repente dá muito jeito. Este último um dos maus, fadado desde a primeira aparição, ainda que tenha demorado a lá chegar, tenha feito mal o seu trabalho, e acabe de forma bastante inglória.
O Larry, o Stu, a Frannie, a Nadine, as escolhas óbvias para o elenco de protagonistas, são muitas vezes aborrecido. Principalmente o Stu. A Frannie, como ainda tem bastantes capítulos dedicados a ela, desenvolve qualquer coisa. O Larry é mais forte no início, mas depois de estar encaminhado para se juntar à povoação que se constrói à volta da messias do bem, perde bastante o interesse. E depois a Nadine, uma personagem com muito potencial, mas que sofre de ser uma personagem com uma grande carga sexual (de forma extremamente relevante para o enredo, diga-se), e portanto é extremamente mal trabalhada, como seria de esperar de um autor incapaz de escrever uma cena de sexo como gente normal.
Claro que não nos podemos esquecer de Randal Flagg, the Dark Man, the Walkin Dude. O messias do mal, uma espécie de demónio eterno com poderes vagos, mas vastos, e que tem... um plano. Nunca é super claro qual é esse plano. Dominar o mundo? Matar toda a gente? Não sei, e não sei se ele sabe. Passa o livro a rir-se de forma creepy e a aparecer em sítios aparentemente do nada. Se é interessante? Está pelo menos bem escrito. O King tem claramente uma especialidade, o terror, e a sua escrita brilha quando para aí deriva. Sempre que precisa de descrever as mil e uma maneiras como Flagg incomoda as pessoas com a sua própria presença, ou como deixa entrever claramente uma força imensa por detrás do corpo humano, acrescenta detalhes que dão uma intensidade quase hipnótica à leitura. Cada uma dessas descrições é uma autêntica masterclass de escrita criativa.
Ah, e menos ainda nos devemos esquecer do Trashcan Man! Uma mente perturbada, um pirómano, usado e manipulado por várias vezes, incluindo, no fim, pelo próprio Dark Man. E o que daí resulta é, digamos, explosivo.
Houve uma coisa de que gostei bastante, mesmo sendo um bocadinho óbvia de mais (apesar de não me lembrar disto da primeira leitura que, assumidamente, já foi há uns anos valentes): na parte final do livro, mais focada nos acontecimento em Las Vegas, o quartel general das forças do mal, é interessante a maneira como situação atrás de situação, a maldade pura de Flagg, sem critério e focada no poder e na sua confiança por ser tão poderoso, o mal acaba invariavelmente derrotado por si próprio. Os espiões, Nadine, e o desfecho final são todos, TODOS sem excepção, culpa do ego e abuso de poder de Flagg. Uma boa mensagem anti-poder!
Os bons é que meio que não serviram para nada. Talvez tenham servido como inimigos para mobilizar as forças do mal, mas pouco ou nada fizeram em termos de oposição. Algumas personagens conseguiram fazer quebrar a máscara de Flagg e revelar o quão frágil era o poder que de facto detinha. Uma sociedade gerida com base no medo e na obediência simplesmente não tem futuro.
Enquanto as coisas acontecem, os bons estão ocupados a construir uma sociedade de volta. De forma extremamente interessante, o King partilha qualquer coisa com as telenovelas que agarram as pessoas à televisão desejosas de saber o que vai acontecer na vida da Jéssica agora que o Daniel a deixou pela Clotilde. Há uma magia qualquer espalhada por cima de um monte de banalidades, que ainda por cima conseguem a proeza de quase sempre avançarem com o enredo. É para lá de impressionante a malha complexa que King tece, capítulo atrás de capítulo, com personagens e acontecimentos aparentemente desconexos, mas que acabam todos juntos, de forma sensata.
Como acho que deu para perceber, adorei esta leitura. Considero um livro fascinante a vários níveis, que talvez merecesse alguma edição de pulso firme, mas tudo bem. Foi óptimo, soube-me bem, e nunca me custou ler mais um capítulo de 30 páginas que nunca mais acaba, apesar, e se calhar por causa de ser a minha segunda leitura. Mas vai-me saber bem ler outras coisas antes de voltar a pegar em King.
Tenciono nunca mais ler este livro.